terça-feira, 2 de março de 2010

Cap.20 - Não farás falso testemunho (em vão)


Era um desses escritórios de advocacia normais, com mesa em madeira pesada e decoração rústica. Sem aquelas bolinhas que batem umas nas outras sobre a mesa. Alguns livros de Direito na estante, que Luís imaginou serem mais pra decoração. O inconveniente sofá de couro preto que fazia barulho quando alguém se sentava e o tapete vermelho decorado. Tudo muito monótono.
Luís acabou chegando antes que Rita, o que lhe impressionou um pouco. A julgar pelos últimos dias, ela estava muito mais ansiosa em acabar com a relação de vinte anos.
Foi convidado a se sentar-se à mesa e aguardar. A recepcionista tinha um ar de prepotência. Havia pego alguns papéis e colocado à sua frente, antes de sair sem dizer mais nada.
O professor não teve tempo de verificar o que era. Antes disso a voz de Rita preencheu o ambiente. Ela entrava decidida, falando sobre a próxima viagem a Brasília. Falava com um homem alto, de aparentemente cinqüenta anos ou mais. Cabelos pretos levemente grisalhos, nariz grande e olhos claros. Luís nunca o tinha visto antes. Também estava junto o tal advogado, por acaso dono daquele escritório. O mesmo que lhe entregou a papelada no sábado de manhã.
Os três se sentaram do mesmo lado da mesa, opostos à Luís, sozinho do seu lado.
- Onde está seu advogado? – perguntou Rodrigo Fernandez, com sua voz sempre dura e sem sentimentos, como uma máquina de separar casais.
- Não tenho. – respondeu, com um leve sorriso de quem está conformado com a situação – Pra que?
- Testemunha?
- Testemunha de quê? Não estou negando absolutamente nada.
Os três se encararam. O advogado então voltou a falar.
- O senhor José Henrique Almeida é testemunha da senhora Rita. – indicou. – Pode nos dizer sua relação com a família?
O homem cruzou os braços e olhou para Luís Pedro. Deu um sorriso leve e voltou-se para o advogado.
- Sou amigo da família.
- Amigo da família? – interrompeu Luís – De que família? Porque da minha não é.
- Por favor, não interrompa, senhor. – pediu o advogado.
Luís encostou-se melhor na cadeira. Estava inconformado. Que tipo de testemunha era essa?
- Sou amigo da Rita e das crianças. A conheci em Brasília.
- E como você chama uma testemunha que nem me conhece? – interrompeu Luís novamente.
- Por favor, senhor. – insistiu o advogado.
- Faz uns… - o homem olhou para Rita como se perguntasse o que devia dizer – Uns 4 meses, não, Rita?
- Sim, por aí. – ela afirmou. – José Henrique trabalhava na mesma empresa que eu, na filial de Brasília.
- E o que pode nos dizer a respeito de Rita, senhor José? – perguntou o advogado.
- Rita é muito dedicada aos filhos. Sempre saía mais cedo para cuidar deles. Passou os últimos quatro meses indo do trabalho pra casa, de casa pro trabalho.
- Nenhuma saída eventual?
- Não, senhor.
- Há alguma coisa que indique uma possível traição por parte de Rita?
- Não senhor.
O advogado então voltou-se a Luís Pedro.
- Como o senhor não tem testemunhas, qualquer coisa que você disser em sua defesa será considerado duvidoso.
Luís fez que sim com a cabeça.
- É verdade que tem se encontrado com outra mulher enquanto Rita estava em Brasília.
- Sim, é verdade.
- O senhor está ciente de que se o divórcio for pedido por Rita por justa causa, os bens passam inteiramente ao poder dela?
- Sim.
- Tem algo a dizer em sua defesa?
- Não.
Luís perderia tudo. Tentar ir contra isso era perda de tempo.
- Então acho que encerramos a sessão. O senhor tem quinze dias para recorrer, caso contrário o divórcio será oficializado e os bens passados ao nome de Rita.
Os quatro se levantaram, sendo que o único que saiu imediatamente foi Luís. Parou na calçada e olhou para os lados. Respirou fundo e lembrou de Sabrina. Se sentiu um idiota por lembrar da garota naquele momento. Mas fazia tanto tempo que não a beijava que quis ir até o apartamento dela imediatamente.
Mas seus pensamentos voltaram aos bens que perdera. Ainda tinha um apartamento no centro, onde morava nos tempos de solteiro. Estava para alugar há dois anos. Também tinha uma conta separada da conta conjugal. Sabia que não ficaria no vermelho e até tinha onde morar. A perda era muito mais emocional do que material.
Agora precisava voltar pra casa. Ou melhor, pra atual casa.

Parou o carro fora da garagem. Logo atrás, um Civic prata estacionou, e de dentro saíram Rita e o tal José.
Na casa ao lado, a vizinha regava algumas plantas. Ela parou para ver a cena e pareceu estranhar. Deu oi para Luís e esperou José ir embora no carro e Rita entrar para chamar o professor mais pra perto.
- Tudo bem, Luís? – ela perguntou.
- Ah, mais ou menos, né, Maria?
- Notei que não foi dar aula hoje. Algo errado?
- Estou me separando. Fui à reunião agora de pouco.
- Ah… entendo… é por causa… dele? – perguntou a mulher, com medo de ser inconveniente.
- Dele? Como assim?
- Aquele homem grisalho que acabou de sair daqui. É por causa dele? Ai, desculpa de perguntar uma coisa dessas!
- Não, não, tudo bem. – disse Luís – Mas por que seria por causa dele?
- Ah… não é? Ele é seu amigo?
- Na verdade nunca o vi. Ele disse ser amigo da Rita e das crianças. Disse que a conheceu em Brasília. Foi a testemunha dela hoje na reunião.
- Sua mulher já tinha trabalhado em Brasília antes?
- Não… por que?
- Porque tenho visto esse homem vir à sua casa o último ano inteiro enquanto você estava na escola.
Luís levou um baque incalculável.
- Ele disse que a conheceu faz quatro meses…
- Quatro meses? Imagina! – exclamou inconformada – Tenho certeza, era aquele homem mesmo, vivia aqui, quase todo dia.
Luís então se lembrou do que a filha havia dito no telefone. “Jamais imaginaria isso de você, achei que fosse o contrário”.
De repente, Luís ganhou um ótimo argumento para recorrer.

3 comentários:

Anônimo disse...

q argumento em!

Anônimo disse...

ta meio bagunça as postangens hain?

Jaqueline Rosa disse...

=O ADOOOOROOOO! tava ficando revoltada ja hahahahah mas amei amei amei!! beeijoos ;***