Chovia lá fora e o ar condicionado estava ligado de forma que as lágrimas logo secaram, tal como suas mãos. O vidro estava embaçado e tudo que podia ser ouvido era o som do motor e do para brisa indo de um lado e do outro. Volta e meia Sabina soluçava com o choro contido.
- Quer me contar o que houve? Não sou seu professor fora do colégio. Não gosto de ver gente chorando. Já faço muita gente chorar com nota.
Ela deu um sorriso fraco.
- É besteira de adolescente.
- Eu sei o quanto algo pequeno cresce pra um jovem. Sei também que nenhum sofrimento deve ser desmerecido. Pode dizer o que houve.
Ela limpou um pouco os olhos, constrangida.
- É o Gustavo. Quer dizer… São minhas amigas.
- As amigas ou o Gustavo?
- As amigas. É que o Gustavo namorou o ano passado inteiro e eu sempre… sempre fui a fim dele. Segunda ele disse que terminou e pediu pra ficar comigo. Elas disseram que na verdade ele não terminou, está com as duas ao mesmo tempo. Mas eu não acredito. Daí elas resolveram se afastar de mim…
Luís parou o carro. Já haviam chegado à casa de Sabrina. No entanto, não abriu a porta. Baixou a cabeça e pensou alguns segundos em como falar isso. Se ela não acreditava nas melhores amigas, quem era ele pra dizer tal coisa?
- Sabrina, não quero fazer falsas acusações. Não quero te magoar nem quero que desgoste de mim por causa disso. Mas tenho visto Gustavo e a namorada juntos uma porção de vezes na última semana. Eu achei que fosse coisa de adolescente, que ele estava só ficando com as duas e que vocês concordavam com isso.
- Juntos? Como juntos?
- Tão juntos quanto você e ele.
Sabrina começou um choro nervoso. Luís não tinha motivo algum pra mentir pra ela. O que ele ganharia com isso?
Não mentia, mas ganharia muito com isso.
Não que fosse seu plano desde o início, pois como dito, Luís tinha a cabeça no lugar.
A abraçou e ela encostou sua cabeça em seu ombro e chorou mais um pouco. Não havia nada pra ser dito, então ele simplesmente não disse nada.
- Eu vou terminar com o Gustavo. – ela avisou entre soluços.
- Isso. Você é linda, vai arrumar um cara a sua altura logo.
- Obrigada, professor.
- Já disse que fora da escola não sou seu professor. Sou Luís Pedro.
- Obrigada, Luís Pedro. – ela se corrigiu, sorrindo.
Talvez tenha sido um lapso. Mas quando deu por si, Sabrina estava tão perto que podia ver as gotas de lágrimas penduradas em seus cílios, e tais gotas viriam a molhar sua face quando as bocas se tocaram levemente.
Os dois coraram. Pela cabeça de Luís vieram as maiores acusações. “Absurdo, barbaridade, crime”. Sentiu que era algo do que jamais esqueceria. Algo que sempre o acompanharia, o culparia. Quando olhasse para a esposa, para os filhos. Quando desse aula para a menina, ou para qualquer outra.
Para Sabrina foi um erro de cálculos. Estava meio desnorteada e ao invés de beijar-lhe a bochecha, acabou vindo um pouco demais para a direita. Tapou a boca com as mãos e o encarou assustada.
- Desculpe, Luís! Desculpe! Eu não…
Ele abriu a porta do carro. Engoliu em seco.
- Não foi nada. Tudo bem.
- Obrigada… - agradeceu constrangida – Até segunda.
E desceu do carro.
sábado, 26 de dezembro de 2009
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