sábado, 19 de dezembro de 2009

Terceiro Capítulo - Esposa

- Filha, talvez seja cedo para dizer, mas acho certo prepará-la para isso.
A mulher de Luís era alta, magra. Bastante bonita, ainda que com quarenta e cinco anos. Estava tensa, chamara a filha pra lhe pôr a par dos últimos acontecimentos. Estavam em Brasília, e a filha de dezessete anos achava que tudo estava bem. Mas nem fazia idéia.
- Meu casamento com seu pai anda frágil. Pode se quebrar a qualquer momento.
- Vocês não se gostam mais?
- Eu amo seu pai. Mas o amor não é tudo numa relação. É preciso demonstrar.

O casamento de Luís Pedro estava frágil sim. E não lhe faltava amor, não lhe faltava dedicação, só lhe faltava tempo. E ao mesmo tempo sobrava. Faltava de tempo para dedicar-se a ela, o trabalho lhe consumia. E sobravam anos de casamento. Uma relação delicada, tênue, baseada em pura confiança, pois os atos eram poucos. Luís falava de épocas em que almoçava no carro, no caminho para outra escola, na época em que fazia mestrado. Foi mais ou menos nesse tempo que desenvolveu o problema na perna que até hoje lhe tirava boas noites de sono. A mulher lhe fazia massagens que ajudavam, mas já pensara em se aposentar em função da dor. Mas se ocorrer a aposentadoria, o que fará da vida? Ficará em casa com a mulher? Algo lhe dizia que isso podia dar menos certo ainda.
Naquela noite ligou para ela novamente e pediu tempo ao tempo. Prometeu que as coisas melhorariam quando voltasse. Estava decidido a salvar o casamento. Amava profundamente a esposa e não deixaria que o trabalho atrapalhasse isso. Não queria perdê-la de forma alguma.
Segunda feira era dia de voltar ao colégio. Na segunda anterior não tinha ido. Teve uma consulta no médico graças à perna. Como sempre, nada resolvido, nenhuma novidade.
Deu aula à três turmas de terceiros anos e outras duas de primeiro. A última aula, novamente, era com a classe de Sabrina. Mas Luís estava tão recheado de problemas que nem se lembrou da carona do dia anterior. Ela, claro, se lembrava com perfeição só comparável à que teve no momento da carona. A diferença de idade entre eles não era apenas física.
Um dos alunos de terceiro ano se chamava Gustavo. Não era ninguém em especial, apenas um rapaz como outros. E quando o viu também não achou nada de estranho, a não ser o fato dele estar parecendo se esconder com outra garota, no canto da sala. Estavam de mãos dadas e conversavam rindo.
- Sem namorico na aula, se querem namorar aqui não é o lugar.
Ela sorriu constrangida e ele olhou ao redor se as pessoas estavam olhando antes. Parecia preocupado em dar muito na cara.
A aula prosseguiu como de costume. Em seguida Luís saiu da sala e foi tomar um café na sala dos professores. Conversou com alguns, comentou sobre sua tese com outro professor de matemática.
- Não vai fazer o doutorado?
- Com quase cinqüenta? Não. Vou fazer a aposentadoria. Aquela correria de defender tese não é comigo não. Pelo menos não mais. A perna também não ajuda.
- Você só precisa de um pouco de juventude na sua vida. – disse o colega de trabalho.
- É, mas juventude é algo que só se tem uma vez.
- Não digo da sua juventude. A juventude dos outros contamina.
- Dou aula pra mais de 300 jovens por dia. Se contaminasse, já teria uns trinta anos a menos. – riu Luís.
- É só você se deixar envolver. – disse o colega.
- Lá na minha cidade, se deixar envolver por jovem é crime. E dos ruins!
Os dois riram e Luís saiu para dar aula na sala de Sabrina.
Como o sinal não tinha batido ainda, os alunos se acumulavam na porta e só alguns lá dentro. Viu algumas meninas dizendo algo como “o Luís chegou, o Luís chegou!” e entraram na sala em seus lugares. Lá fora só ficaram duas pessoas. Sabrina e o mesmo Gustavo de antes. Beijavam-se.
Claro que aquilo não era de seu interesse. Mas parou pra pensar na inconstância dos jovens. Aliás, inconstância se a garota tiver sorte. Pode ser falta de fidelidade mesmo.
Apressou-a para que entrasse e deu aula como se nada tivesse acontecido.

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