sábado, 19 de dezembro de 2009

Segundo Capítulo - Luís Pedro

Luís arrumou as coisas e deu uma última olhada na sala. Algumas meninas olhavam pra ele e davam risadinhas. Achou engraçado. Levantou-se e agradeceu, disse que era bom dar aula naquela sala novamente. Era verdade. Sua experiência com eles dizia que era uma das melhores turmas para qual já tinha lecionado. Na maioria massiva eram meninas. E não era bobo. Sabia que muitas delas faziam comentários a seu respeito. As via corar, as via se gabar por ter falado com ele. Mas sabia também que eram apenas adolescentes com hormônios saltitantes.
Ele saiu e ia pegar o resto de suas coisas em seu armário na sala dos professores, quando a coordenadora o parou.
- Sua mulher ligou, Luís. Pediu pra você ligar pra ela.
Se ela havia ligado na escola, era assunto sério.
- Obrigado, eu ligo pra ela.
Pegou o celular e discou para a esposa. Ela estava em Brasília no momento.
- Alô? Eu to na escola! – ele justificou – Não posso atender ligação assim. Olha, tá a maior barulheira aqui, eu te ligo em cas…
E foi nesse momento que uma garota se chocou contra ele, pegando-o de surpresa.
- Desculpe. – ele disse. – Estava distraído.
Era uma de suas alunas, Sabrina. Havia se sentado na primeira carteira nessa aula. Mas se lembrava bem que ela costumava sentar encostada na parede, no fundo, no primeiro colegial. Uma garota bonita, pele muito branca e cabelos bastante escuros. Olhos claros que gostava bastante.
- Não, desculpa eu. – pediu embaraçada – É que eu estava perdendo o ônibus, não olhei pra onde estava indo. É que não tem ônibus depois…
- Bom, então melhor correr mesmo. – disse ele entregando-lhe o material. – Até semana que vem.
A garota voltou a correr, batendo em alguns outros estudantes pelo caminho. Juventude é algo impagável mesmo.
Foi até a sala dos professores, abriu seu armário e olhou para a foto de sua mulher e seus filhos colada na porta. O olhar dela parecia ter perdido um pouco do brilho. Sentiu certa culpa por não ter tanta saudades assim. Era ela quem ligava de Brasília, sempre.
Pegou o que precisava e guardou o que não precisava. Fechou o armário e foi pro carro.
Já nem lembrava mais da trombada com a aluna. Só foi lembrar do ocorrido quando passou em frente o ponto de ônibus e a viu sentada quase chorando.
Parou o carro e lhe ofereceu uma carona. Conversou um pouco com a garota, que parecia envergonhada e embaraçada de estar em seu carro. Não se lembrava muito do que tinha dito, a cabeça estava em outro lugar. Mas pareceu acordar de súbito quando o celular tocou.
- Está no colégio ainda? – perguntou a esposa do outro lado da linha, de Brasília.
- Não, já saí. – ele disse – Estou chegando em casa.
- Vire aqui. – Pediu Sabrina constrangida.
Virou instintivamente, pois mal tinha ouvido a aluna falar.
- Tem uma mulher aí com você?
- Não, não…
- Que voz é essa do seu lado?
- É uma aluna.
- Não disse que não estava mais no colégio?
- Sim, eu já saí, só estou dando carona pra ela. Eu ligo quanto chegar em casa, estou no trânsito
- Eu preciso falar com você, Luís. Não estou gostando disso. Eu achei que com a distância talvez a saudade pudesse nos consertar, mas parece que não. Sempre fiz tudo pra te deixar feliz e…
- Depois conversamos sobre isso. – e desligou.
Não se lembrava de ter dito ou ouvido qualquer coisa depois de tal ligação. Só quando finalmente chegou à casa de Sabrina. Ela agradeceu, ele se despediu e partiu. Estava muito irritado.

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