As coisas deram certo.
Por muito tempo, aliás.
Claro, tempo é algo relativo. Para Sabrina, aqueles três meses foram tudo que podia esperar da vida perfeita. Para Luís era viciante, algo que quer tanto que simplesmente não consegue ter o suficiente, por mais que tente. Estava completamente apaixonado, e se apaixonando mais. Doía que ninguém pudesse saber. Até mesmo sua filha, que já o havia perdoado, perguntou quem era a mulher com quem tinha saído, e compreendeu que ele ainda a visse, mesmo que não quisesse dizer quem era. Até por que, sua mãe já estava com outro. As férias já haviam acabado, no entanto, e os filhos voltaram pra Brasília, e Luís voltara a se encontrar com Sabrina direto. Saíam aos fins de semana, passaram um feriado prolongado na praia. Ele fez algumas dezenas de poesias em nome dela, e aquelas que não podiam ser deduzidas foram lidas em sala de aula, como numa representação de seu desejo reprimido de gritar para o mundo o quão linda era Sabrina.
E mais! Graças ás caronas constantes, Luís havia se tornado amigo da família. Não eram raras as vezes em que ia até a casa dela supostamente ensinar Matemática.
E era exatamente por isso que dia quinze de agosto, um sábado, Sabrina recebia quarenta pessoas em sua casa para um churrasco, todas da escola, e mais Luís Pedro. Fora tias, tios e avós. Era seu aniversário de 18 anos, e a menina estava eufórica. Não ficava muito perto do professor, para não despertar desconfianças. Ele ria, conversando com os pais dela. O pai, em especial, não podia deixar de perguntar se ela estava indo bem na matéria.
- Tirou uma nota baixa recentemente, mas já peguei no pé dela.
- E pode pegar mesmo! – autorizou o pai, colocando um pedaço de carne na boca – Senão ela não estuda!
Luís riu e concordou. Aliás, tem dado atenção aos estudos dela. Realmente a ajudava, a fazia estudar, mesmo quando ela não estava nem um pouco afim de abrir um livro. Seu desempenho tinha aumentado, ao invés de cair como normalmente acontece quando uma jovem começa um relacionamento. O que não era muito estranho, já que estava com um professor.
- E aí, Sabrina? Vi que convidou o Luís Pedro… - cochichou Pâmela – As coisas andam bem, heim?
- Melhor do que nunca. Meus pais estão amigos dele.
- Sério? Mas eles não sabem… né?
- Não, não, claro que não. Não quero nem pensar no que fariam se descobrissem.
- Mas trás o cara aqui? Não acha que é arriscar demais?
- Se quer saber, foram meus pais quem o convidaram, eu nem estava sabendo. Estava planejando sair com ele amanhã, depois da aula, pra comemorar o aniversário.
- Entendo… - disse Pâmela, parando pra olhar Luís Pedro – Ai, Sabrina, morro de inveja, daria tudo pra saber como é uma noite com ele…
- Você sabe como é. Eu já te contei detalhes o suficiente.
- Ai, você entendeu.
- Entendi, mas não vou emprestá-lo a você. – riu Sabrina.
- Olha pras outras meninas, Sah. – pediu Pâmela, apontando as que estavam nadando na piscina e andando ao redor da mesma.
Elas olhavam Luís Pedro constantemente. Talvez por ser um professor numa festa de uma aluna, mas o motivo mais provável era tentar atrair o olhar dele. Um bando de adolescentes de biquíni passeando pra lá e pra cá.
- Não fica com ciúmes?
Sabrina sorriu. Virou-se de costas para o lugar onde Luís estava, de forma que Pâmela estava à sua frente.
- Pra onde ele está olhando?
Pâmela buscou os olhos do professor e começou a rir.
- Tá olhando pra você feito um bobo.
- Não preciso ter ciúmes.
- Ah, vai saber. Se ele traiu a ex-mulher…
- Acontece que a ex dele estava longe e já não dava atenção pra ele. – explicou Sabrina. – Eu tenho dado todo o amor do mundo.
Nesse momento mais algumas meninas apareceram ao redor.
- Sabrina, me diz como você fez pro Luís Pedro vir no seu aniversário! – disse uma das garotas, Gabriela.
- Ah, é que meus pais combinaram dele me dar carona toda segunda e sexta, e acabaram ficando amigos dele.
- Você pega carona com o Luís Pedro duas vezes por semana!? – espantou-se outra garota – Nossa! Daria tudo pra isso! Se bem que ter o professor de Matemática amigo dos pais deve ser meio tenso…
- Pra Sabrina não, né, Sah? – disse Pâmela – Só tem tirado nota alta.
- Sua nerd. Boa em Quimica e Matemática.
Um garoto do segundo colegial aproximou-se do grupo de garotas. Pediu desculpas por interromper a conversa e dirigiu a fala à Sabrina:
- Sah, será que você pode dançar comigo?
Sabrina não achou motivos para recusar e juntou-se ao grande grupo de pessoas que dançavam no grande gramado. Não deu nem dois minutos, Luís Pedro se aproximou dos dois.
- Será que posso dançar com ela agora, Felipe?
O garoto encarou o professor um tanto quanto assustado com o fato, mas achou melhor não contrariar. Afastou-se da garota e ficou olhando de longe.
- Que ciúmes! – disse Sabrina. – Arriscar assim vindo dançar comigo só pra tirar o Felipe daqui?
- Foi seu pai quem pediu. – ele se justificou. – Não gostou de ver o garoto dançando com você de biquíni.
- E pediu pra você dançar no lugar dele?
- Viu como sou um bom exemplo?
- Pois é… Não sei o que meu pai faria sem você pra me pôr na linha.
- Se não quer dançar é só dizer.
- Eu quero. Só está estranho ter que ficar distante na dança.
- Depois nós vamos pro meu apartamento. Vamos jantar lá. Se quiser podemos dançar também.
- E vai ter vinho? Agora já posso, heim?
- Vai, vai ter vinho.
As outras meninas babavam olhando. Ficavam dançando ao redor, tentando fazê-lo ir dançar com qualquer uma delas. Mas Luís só tinha olhos pra Sabrina.
Quando a música terminou, Luís voltou a sentar-se com os pais da menina.
- Não dá pra deixar ela com um garoto qualquer daqueles, não acha?
- Olha, dou aula pra eles e sei bem que não é fácil entregar uma filha assim pra um garoto qualquer. – disse Luís.
- Tem filhos?
- Claro, claro. Três. Uma filha da idade de Sabrina.
- Ah, então deve saber como é.
- Sei, sim. Principalmente porque ela mora em Brasília, não dá pra controlar.
A festa foi até as seis da tarde. Na casa agora só estava a família, Pâmela e Luís Pedro, pois este havia combinado de levar as duas para o apartamento no centro. Elas arrumaram a mala da semana e entraram no carro do professor. Pâmela ia mesmo para o apartamento, mas para Sabrina os planos eram outros.
- Vê se não vai dormir tarde, heim, Sá? – disse Pâmela – Amanhã tem prova na primeira aula.
- Ela não vai dormir tarde. – disse Luís Pedro – Não vou deixar.
- É, os velhinhos têm que dormir cedo. – disse Sabrina, provocando-o.
- Do que você está falando? Sou eu quem vai te colocar pra dormir. – riu Luís Pedro.
O carro parou em frente o apartamento e Pâmela desceu. Deu tchau à amiga e o professor dirigiu à sua casa.
O apartamento já estava todo decorado, com sugestões de Sabrina. Havia diversas fotos dos dois por todo canto, revezadas com as dele com os filhos. Aparentemente nada de especial havia sido preparado.
- Vou fazer nosso jantar. – ele avisou – Depois vou dar seu presente.
- Presente? Vou ganhar presente?
- É só uma lembrancinha. Tem que ter né? A partir de hoje não estou mais cometendo um crime.
Luis se dirigiu à cozinha enquanto ela ligava a televisão na sala. A comida já estava parcialmente pronta, pois já deixara tudo com meio caminho andado. Era só pôr no forno e fazer um arroz.
Tirou o vinho da geladeira e levou duas taças até a sala. Entregou uma a ela e encheu.
- Está romântico hoje só porque é meu aniversário?
- E algum dia eu não sou romântico?
- Tem razão. Só que hoje está excepcional.
Ele se sentou ao lado dela, tomou um gole do vinho e a beijou. Logo em seguida se levantou e foi ver a comida.
- Não me disse que tinha prova amanhã na primeira aula. – disse Luís da cozinha.
- Não achei que fosse importante dizer.
- Tem que dormir cedo se tem prova.
- Você vai fazer o papel do Luís Pedro ou do professor de Matemática?
Ele apareceu com a comida e colocou na mesa, que já estava organizada.
- Do Luís Pedro, o professor de Matemática. Agora venha comer.
A comida estava divina, perfeita. Mas Sabrina não elogiou o tanto que ele merecia, pra que não ficasse com o ego alto demais. O vinho havia sido selecionado a dedo, um dos mais caros na coleção de Luis. Estava tudo indo como nos conformes.
Assim que o jantar acabou, ele segurou a mão dela e olhou em seus olhos.
- Agora quer receber seu presente?
- Você quem sabe.
Ele sorriu, tirou do bolso uma caixinha preta. O coração de Sabrina pulou. A caixinha foi aberta, revelando os dois anéis de prata que guardavam, talhados na parte inteira “Luís Pedro e Sabrina”.
Não teve nem tempo dos olhos lacrimejarem, as lágrimas vieram antes de tudo. As mãos tremeram, suaram frio. O coração queria sair do peito.
Luís tirou o anel menor e estendeu a mão, pedindo pra que ele colocasse a dela sobre. Riu devido à tremedeira dela. Encaixou o anel e entregou a caixinha para que Sabrina fizesse o mesmo.
- Claro que não poderá usar na sua casa. – ele disse – Na escola talvez baste mudar de dedo… se você não quiser usar eu…
Sabrina o interrompeu com um beijo e um abraço apertado. Sua emoção chega a ser tão grande que ele podia sentir o coração dela bater em seu peito. Ela ainda chorava. Talvez o momento mais feliz de toda sua vida. E se é que isso era possível, aquela noite fora a melhor que já passaram juntos. A mais despreocupada, a mais entregue.
sábado, 20 de março de 2010
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2 comentários:
Lindo!
lindoooooooooo, perfeito!
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