terça-feira, 16 de março de 2010

Cap. 23 - Praxe


Segunda-feira.
Parou o carro em frente a casa de Sabrina. A menina tinha ido de ônibus para lá sozinha e aguardava ansiosamente pela chegada de Luís. Tinha avisado aos pais que o professor de matemática esclareceria o ocorrido.
Desceu do carro e tocou a campainha. Uma senhora de aproximadamente 40 anos e olhos claros veio atendê-lo. Ela trajava um vestido azul fino e era consideravelmente bonita.
- O senhor é o Professor Luís Pedro?
- Sim,sou eu.
- Muito prazer em conhecê-lo - A mulher era extremamente simpática, e cumprimentou-o com um aperto de mão e um sorriso. - Entre, entre. Eu e meu esposo esperamos não estarmos causando-lhe nenhum transtorno. Meu nome é Mara.
- Não, claro que não. Foi de meu feitio vir até aqui Sra Mara.
Luís e a mulher adentraram a sala. No sofá aguardava um homem também de meia idade, alto, com corpo definido e pele queimada pelo sol. Formavam um belo casal, tinham feito uma bela filha. Luís apertou a mão do homem com certo receio e foi convidado a sentar-se com eles.
- Então o senhor sabe o que aconteceu com nossa filha? - O homem começou educadamente, porém firme.
- Bem, resolvi me envolver, pois soube que o que aconteceu foi fora do colégio, no caminho para o ponto de ônibus. A escola nada tem a ver com isso. Uma aluna do período noturno tentou pegar a bolsa dela e Sabrina se defendeu.
Nesse momento, a aluna vinha descendo as escadas. Usava um pijama curto e recebeu um olhar de desaprovação do pai, bem como um de aprovação por parte de Luís. Trocaram olhares intensos.
- Boa noite professor.
- Olá Sabrina.
- Sabrina – começou sua mãe – Por que não nos disse que tentaram te assaltar?
- Ah mãe...Eu fiquei com medo que quisessem fazer Boletim de Ocorrência. Quero deixar esse assunto pra lá.
- Por mais que seja injusto – começou Luís – Num colégio público não vão fazer nada pelos senhores. O melhor a fazer é evitar sair sozinha da escola né ? - disse olhando pra Sabrina.
- Professor, não sei se o senhor sabe, mas não podemos buscá-la... Ela tem que vir de ônibus. Você deve saber disso, me lembro que já deu carona pra ela uma vez.
- É,eu sei. Posso trazê-la de vez em quando, se os senhores preferirem.
- Mas o senhor mora perto daqui? - questionou o pai de Sabrina
- Moro. Quer dizer...estou morando no centro agora – enrolou-se Luís Pedro – Mas a casa de minha mãe é caminho e eu visito-a nas sextas – mentiu.
- Tudo bem então, se assim estiver tudo certo pra você filha.
- Se os senhores acham que é melhor, não vejo porque não – adiantou-se Sabrina.
- Por mim, tudo bem. - disse Luís.
- Então está feito. Inclusive...Sabrina, por que você já não volta com o Luís Pedro para o centro agora, já que ele vai para lá e assim não tem que pegar ônibus amanhã? - a mãe dela disse receosa, pedindo com os olhos pela provação do marido.
- Pode ser mãe...Pai, professor?
- Claro – disse o pai.
- Te deixo em casa então. Vá se trocar.
Naquela noite, Luís não foi para a casa de sua esposa buscar suas coisas. Tinha outros planos, assim que Sabrina entrou em seu carro.
Ela logo notou que o caminho feito era outro.
- Pra onde estamos indo?
- Está com fome?
- Um pouco.
- Vou te levar pra jantar.
Sabrina sorriu.
- Primeiro vai conhecer meus pais e agora vai me levar pra jantar?
- Não consigo me desapegar dos modos românticos do meu tempo. É realmente uma pena que não tenha dezoito anos pra tomar um vinho comigo.
- Ah, Luís, você realmente se importa com isso? – reclamou.
- Lógico que me importo. Aliás, quando faz dezoito?
- Agosto. Falta um tempo ainda. – respondeu, contando nos dedos – Três meses.
- Então até lá nada de bebida alcoólica.
Ele estacionou num restaurante relativamente fino, com música ao vivo. Antes de sair do carro lhe deu um beijo, pois sabia que lá dentro isso não seria possível.
A relação dos dois era muito mais complicada do que os namoros escondidos normais. Na deles, nem mesmo as pessoas que não os conhecia podia saber.
Os dois realmente pareciam pai e filha, com o mesmo cabelo escuro e pele clara.Mas para um observador mais cauteloso, os toques, os carinhos, os olhares, deixavam claro que era muito mais do que isso.
Sentaram-se numa mesa para dois, lado a lado. A luz era baixa, o som era calmo. Sabrina estava nas nuvens. Nada parecia poder dar errado naquele dia. Luís também estava igualmente feliz. Apesar de tudo que havia acontecido na última semana, não queria nem se imaginar em outro lugar.
O garçom se aproximou dos dois com o cardápio e entregou à eles.
Luís já conhecia o restaurante e sabia bem como funcionava e o que devia pedir. Pediu a Sabrina que confiasse em seu gosto e perguntou o que ela tomaria.
- Você vai beber vinho, não é? – ela perguntou – Não posso mesmo?
- Não. Escolhe um refrigerante.
- Não quer mesmo ver o que acontece se eu tomar vinho?
Luís riu, olhando nos olhos dela.
- Tá bom, tá bom. O que eu não faço, não é mesmo?
Sabrina não era lá muito forte pra bebida e sabia disso. Então tomou o vinho bem devagar, pra não ficar muito alta logo no começo do jantar. A comida veio e estava divina. Ninguém lhe olhando, ninguém lhes julgando. Só o garçom que ao anotar os pedidos perguntou “e a garotinha vai querer o quê?”. Deve ter se surpreendido quando Luís disse que ambos tomariam vinho. Se desconfiou serem um casal, só Deus sabe. Mas por debaixo da mesa, Luís segurava a mão de Sabrina, delicadamente.
- Estou feliz demais, Luís.
- É, suas bochechas estão rosadas, está bem alegre mesmo. - ele riu.
- Não, seu bobo. Estou feliz por estar aqui com você.
- E por ter tomado vinho.
- Ah, para de falar do vinho!
- Acho que é hora de irmos, não?
- Você nem ficou alegre ainda! Tomei mais que você!
- Tenho que dirigir, Sabrina. Não estamos em casa, se acaso não notou.
- Ah, logo, logo vou estar dirigindo, e aí vamos poder revezar. E por falar em casa, vamos pro meu apartamento? A Pâmela está lá.
- Na verdade estava planejando te levar pra conhecer meu apartamento da época de solteiro. Vou me mudar pra lá. Os móveis ainda estão chegando aos poucos, estou comprando alguns novos. Você podia me ajudar.
- A cama já está lá?
- Já. Por que?
- Por nada não. – ela respondeu rindo, um pouco pela bebida.
- Como se ter cama fizesse diferença pra você...
- Olha só quem fala!
- Eu? Eu to velho. Pra mim é só convencional e olhe lá.
- Tem coragem de dizer isso na minha cara? – disse ela, rindo.
- Ok, ok. Vou fechar a conta e nós vamos pro apartamento. Vai indo pro carro e leva o vinho.
- Ok! – afirmou, levantando-se de imediato.
- Ah… Sabrina? – ele chamou, quando ela já saía – Eu te amo. Mas não se acostuma não.

2 comentários:

Anônimo disse...

aiiiiii que tudãaaao

Anônimo disse...

sem comentários... adorei