sábado, 30 de janeiro de 2010

Capítulo 13 - Soberba

- Quando eu voltar, vamos conversar.
A voz da mulher de Luís Pedro estava pesada ao telefone. Ele podia ouvir chuva do outro lado da linha, o que era estranho naquela altura do ano, em Brasília. Mas seus pensamentos não se focaram nisso. Na verdade, mesmo a mulher estando tão longe, pensava nas chances dela saber sobre a traição. Já fazia tanto tempo que ela insistia em dizer que iam conversar quando voltasse que ficou redundante. Mas isso porque ele sempre tentava extrair informação dela por telefone, mas ela sempre dizia a mesma coisa. “Tenho que olhar nos seus olhos pra isso”. Suspeitava de traição? Não, impossível, coisa de sua cabeça. Estava insatisfeita com o casamento, simplesmente. Natural, ele também percebera certo esfriamento nos últimos anos.
- Já sabe quando virá? – ele perguntou.
Era sempre a mesma conversa. Como vão nossos filhos? Como vai você? O que fez no trabalho? Por que está nervosa? Podemos conversar já? Já sabe quando volta?
- Não sei ainda. Mas acho que só no fim do semestre mesmo.
Eles então desligavam, friamente. Estava sendo assim nos últimos telefonemas.
Isso no fim de semana. Segunda era dia de encarar Sabrina de novo.
As aulas se prosseguiram normais. Não a viu no corredor nenhuma vez. Só viu Daniel vez ou outra no bebedouro ou conversando. Achou que a garota tinha faltado.
Na aula da classe dela, notou que não estava na primeira fileira, então concluiu que não tinha mesmo vindo á aula. Ficou imaginando motivos até fazer a chamada e, do fundo da sala, Sabrina respondeu.
Encarou-a com dúvida, mas ela não demonstrou responder qualquer coisa. Então simplesmente agradeceu por ela não estar com um decote logo em frente sua mesa, tomando-lhe a atenção. Deu aula normalmente. Aliás, a aula mais próxima de seu habitual possível. Não ganhou nem tchau na saída e foi embora.
A terça-feira não foi menos estranha. Não viu Sabrina o dia todo, já que não tinha aula com ela. Estava se afastando dele? Tinha magoado-a de alguma forma? Não importa. Era melhor assim mesmo, não devia nem estar pensando nisso.
Seguiu com seu trabalho como sempre. Realmente não sabia por que tentava ouvir o que Daniel falava, mas não parou muito tempo pra pensar no assunto, simplesmente deu aula, conversando, narrando histórias, como o habitual.
Chegou a vê-la uma vez, mas a garota não pareceu tê-lo visto. Ou se viu, fingiu que não.
Demorou um pouco pra conseguiu tirar essa história da cabeça, mas o fez. No dia seguinte, nem se lembrava da terça-feira. Pena que acabou se lembrando perfeitamente quando, de novo, ela se sentou ao fundo e nem olhou pra cara dele.
Não é que ele estivesse com saudade. Não é que sentisse falta dela. Mas foi um afastamento repentino, e aparentemente sem motivo algum. Estavam mantendo uma boa relação, por que se afastar?
A quem queria enganar? Luís Pedro estava morrendo de saudades daquela garota. E a situação de não saber o por que dela se afastar lhe tomava o ar.
Quinta-feira. Sem aula com ela de novo. Mas dessa vez algo mais estranho aconteceu.
Enquanto passava pelos corredores do colégio, a viu sentada numa escadaria. Estava sozinha. Fingiu não ter visto e passou reto.
Na segunda aula, atravessou o mesmo corredor e a viu de novo lá. Dessa vez sabia que ela devia estar tendo aula. Por que estava ali? O que acontecia? Por algum motivo, Luís achou melhor não ir averiguar o assunto. Talvez ela estivesse apenas querendo provar que ele pode sentir falta dela mesmo sem ser provocado. Mas olhou para a garota. Notou que ela tinha os olhos aguados. Preocupou-se, mas seguiu pra classe que daria aula naquele momento.
A classe de Daniel, por acaso.
O menino não parecia nem um pouco triste. Pelo contrário, falou a aula toda, chegando até a atrapalhar. Mas era o natural dele. Algumas broncas eram suficientes.
Entretanto, por algum motivo, uma de suas repreensões foi:
- A senhorita Sabrina não está sabendo te educar direito?
Os amigos zombaram do garoto. Daniel, porém, ficou sério. Encarou Luís Pedro com certa raiva no olhar. A classe fazia algazarra, enquanto o garoto torcia o rosto para o professor.
- Por que? Ela sabe educar direitinho, professor?
Silêncio.
Por alguns segundos, Luís Pedro olhou no fundo dos olhos de Daniel, procurando algo que lhe desse certeza. Daniel sabia? Era isso mesmo que queria dizer aquela frase? O garoto sabia de tudo? Por isso Sabrina estava recolhida? Seu coração pulou dentro de sua caixa torácica. Um medo irracional se apoderou dele. Mas tinha que manter a calma. Caso contrário não seria apenas Daniel quem saberia. Maldita menina, por que teve que falar?
- Por que eu saberia disso?
Daniel então lhe deu um sorriso de canto. Era como se lhe avisasse que tal resposta só pudesse ser dada quando estivessem sozinhos.
Afinal, Luís Pedro seguiu o padrão de todo culpado: responder com uma pergunta. E mais do que isso, a pergunta era como se dissesse “fiz algo que revelou meu segredo?”. Mas é uma resposta automática do ser humano. Uma resposta que podia lhe custar muita coisa.
Mas tudo que o professor conseguia pensar naquele momento era: ele comentou com algum amigo? Viraria motivo de vergonha? Pensava na hipótese da direção vir a saber, que tipo de repercussão isso daria? Professor assedia aluna menor de idade.
Não. Precisava tirar essa história a limpo. Imediatamente.
Assim que a aula acabou, correu até a escadaria. Sabrina ainda estava lá, com os olhos já inchados. Olhou para os lados, vendo se alguém podia desconfiar. Claro que não, apenas vira uma aluna chorando e se viu na obrigação de ajudar.
- Sabrina?
A menina olhou pra ele e suspirou. Parecia não estar muito a fim de conversar justamente com ele.
- Diga…
- Nem sei por onde começar.
- Se puder ser breve…
- O Daniel sabe?
Ela pareceu assustada. Os olhos estavam mais claros do que nunca. Olhou para Luís Pedro cheia de culpa e pôs-se a chorar.
- Ele descobriu? – ela murmurou.
- Como assim? Você contou ou não?
- Não! – ela afirmou, em seguida olhou para os lados, preocupada – Daniel sabe apenas que tive um caso com um professor.
- E por que raios ele sabe disso?! – exaltou-se Luís.
- Pâmela sabia da história toda. Da primeira vez pelo menos. Achei que pudesse confiar nela.
Luis teve que dar um tempo para que não explodisse e começasse a chacoalhá-la ali mesmo.
- Achou que podia confiar nela? – disse, entre os dentes, segurando a raiva – Menina, se descobrem, quem vai preso sou eu, não você. Eu tenho uma família inteira pra cuidar.
- Me desculpe! Mas a Pâmela não vai falar… Ela só contou porque Daniel a pressionou.
- Se a pressionou, uma desconfiança prévia ele já tinha.
- Sim… no dia em que você não o deixou entrar ele saiu meio desconfiado. Eu disse que tinha pego no sono, ele até acreditou. Então fuçou meu celular e tinha uma mensagem da Pâmela. “E aí, qual dos dois veio ontem?”. Ele brigou muito comigo, eu aleguei que não fazia idéia do que ela estava falando. Pâmela é uma boa amiga, é uma boa pessoa, mas não agüentou Daniel pressionando-a para que falasse. Disse que eu tive um caso com um professor, mas não disse qual. Veio bravo, brigou comigo, perguntou quem era, mas eu não contei. Até me afastei de você essa semana, pra que ele não desconfiasse.
- Se afastou? Nem notei.
Luís então se lembrou da feição de raiva no rosto do menino. Quando falou de Sabrina, ele deve ter associado à história.
- Falei de você na aula, ele deve ter desconfiado de mim.
- Falou de mim? O que você falou?
- Nada de mais. Ele estava conversando, perguntei se você não estava educando-o direito.
- E ele…?
Luís suspirou irritado. Fora ele mesmo quem dera a brecha.
- Respondeu com um “por que? Ela sabe educar direitinho?”
- Ah… bem… ele também desconfiava do João Paulo. Como sou monitora de Química, achou que fosse ele. E até foi fazer umas perguntas de duplo sentido sobre mim pra ele. Veio todo raivoso dizendo que “O João Paulo te acha boa monitora. BOA!” – imitou Sabrina.
Luís Pedro acharia graça naquilo se não fosse o momento.
- Então não tem por que provar que fui eu só com aquilo, não é?
- Não, acho que não.
- Só com aquilo não, - disse Daniel, descendo as escadas atrás dos dois, a passos pesados e precisos – Mas com essa conversa sim.
Luís Pedro encarou o garoto em silêncio. Não tinha o que falar. Estava paralisado. Podia ver sua vida toda ruindo.
- Então foi ele, Sabrina? Foi esse cara quem te teve antes de mim? Que pena, professor. Sempre te achei um cara tão legal, tão centrado. Do tipo que dá orgulho, sabe? Do tipo que não comete erros idiotas do tipo sair com uma colegial. Mas te entendo. Eu também teria esse fetiche aos cinqüenta.
Luís virou os olhos, inconformado com tais ataques infantis. Mas o atingiram de certa forma. Sabia que parte disso era verdade. Nunca fora do tipo que se deixa levar por uma aluna. Sempre foi correto demais pra isso. Na verdade, nem ele acreditaria se contasse que um dia sairia com uma garota de dezessete anos. Mas era Sabrina. Sabrina que teve algo a mais, um especial, ou apenas estava lá no momento errado.
- Isso vem de alguém inconformado com meu crime ou apenas de um garoto traído pela namorada?
- Faz alguma diferença?
- Claro que faz. Porque de inconformado já basta eu. Não precisa se preocupar, se é isso que fica na sua cabeça. Não vou atacar menininhas indefesas. Agora, se o que te fere é ter sido traído, igualmente não precisa se preocupar. Quando aconteceu vocês nem estavam namorando.
- Acha que é fácil assim, professor? Acha que eu vou sair daqui agora alegre e contente?
- O que quer é me prejudicar? – Luís se aproximou mais do garoto. Uma onda de raiva percorria seu corpo – Tente.
Daniel torceu o rosto. Seus olhos pareciam fumegar. Como podia o professor criminoso ter tanta certeza de si próprio? Devia estar descontrolado pedindo que não dissesse nada. Até tirar umas notas dele esperava.
Acontece que era… Luís Pedro.
- Não seja idiota, imagine que história boa que daria! Professor de Matemática assedia aluna menor de idade. Sejamos francos, quanto tempo de prisão pegaria?
- Prove que assediei uma aluna.
Daniel ficou calado.
- Prove que sequer encostei nela. Duvido muito que ela vá contar, então é apenas a sua palavra contra a de um professor, como disse, centrado e correto.
- Basta espalhar um boato por aí. Noticias como essa correm fácil na escola.
- Espalhe um boato como esse e será expulso do colégio em dois tempos. E se eu quiser, posso processar seus pais por difamação. Você não tem provas, garoto. Então é melhor ficar quietinho. Além do mais, o que você ganharia espalhando o boato de que sua namorada prefere um cara com três vezes sua idade?
Daniel cerrou os dentes e não disse mais nada. Olhou para Sabrina, que não sabia se ria da humilhação do garoto ou continuava chorando.
- Isso vai ter troco, senhor Luís Pedro. – avisou, saindo em seguida.
Luís virou-se para Sabrina novamente. Tinha um leve sorriso de vitória nos lábios.
- Desculpe. – ele disse – Acho que perdeu seu namorado.
- Eu não gostava dele mesmo…
- Mas estava tentando gostar.
- Depois de estar com você… - ela pensou melhor antes de falar. Corou e baixou a cabeça – É difícil gostar de outro.
Ele suspirou, sentindo a culpa em cada molécula de ar que penetrou em seus pulmões.
- Mas é necessário. – ele adicionou.
- Sim. Juro que estou tentando. Sei que fui imatura o tempo todo. Acabou que só lhe dei estresse e dor de cabeça.
- Fui eu quem se deixou levar. Tudo podia ter sido evitado. Nem eu nem você queríamos de início, foi apenas uma soma de fatores.
- Tinha que ser uma soma de fatores. Você é professor de Matemática. – ela riu, entre o choro.
Ele deu uma leve risada e se sentou ao lado dela, finalmente.
- Engraçado. – ela disse.
- O que?
- Antes estávamos culpando um ao outro. Agora cada um puxa a culpa pra si próprio.
- Eu sempre soube que a culpa era minha. Sempre senti a culpa toda sobre minhas costas, mas achava que se tentasse colocá-la em você, ela realmente sairia de mim.
- E eu sempre soube que você tinha muito mais a perder do que eu. No seu lugar, tudo que tentaria fazer é me manter afastado. Admito que fui uma grande idiota te provocando. Você tem uma família. Mas tentei usar minha virgindade pra dizer que também perdi algo. – ela deu um riso sarcástico curto – Até parece. Como se eu tivesse desgostado.
- Também não desgostei muito não. – ele admitiu sorrindo.
Ela sorriu e abaixou a cabeça. Limpou uma lágrima que escorria e ficou mais séria.
- Você é muito difícil de esquecer, Luís.
- Mesmo depois de mais de uma semana?
- Não é sexo. Estou falando… de você. Sei que sou nova demais pra entender de amor. Mas… eu gostei e corri atrás do Gustavo por dois anos. Sempre o achei atraente, gentil, educado. Sempre achei que fosse o namorado ideal. Daí surge você, com esse jeito inteligente, sarcástico, experiente, dominador… - ficou vermelha ao dizer o último adjetivo – e eu comecei a tremer sempre que te via. Eu jamais me imaginaria fazendo todas aquelas provocações, mas algo em mim me dizia que devia ser tudo ou nada. Falar com você é andar nas nuvens. Lembrar do seu cheiro, pensar em nós dois juntos… E não precisa me dizer o quanto isso é errado, não precisa me pedir pra te esquecer, eu sei que perfeitamente o quanto é impossível outra noite com você. Antes de tudo eu já te achava o máximo. Depois então…
- Sabrina… não sei o que dizer.
- É assim que ficam as pessoas que recebem declarações sem sentirem o mesmo. – ela disse com um sorriso fraco. – Sei como é. Foi assim com o Daniel.
- E mesmo assim ficou com ele. Por que?
- Eu achava que você podia ser substituído. Mas já ficou claro que não pode. Não tão cedo.
- Senti sua falta essa semana. – ele revelou, cortando o assunto – Fiquei preocupado de ter se ausentado de repente.
Ela pareceu ficar feliz dele ter sentido falta.
- Desculpe não avisar, achei que ia ficar muito nervoso, preocupado. Pensei que podia lidar com isso sozinha.
- Tudo bem. Acabou agora.
Os dois ficaram num silêncio constrangedor por mais um tempo. Foi quando Luís se lembrou de um pequeno detalhe.
- Por que estava aqui chorando o dia todo afinal?
Ela corou.
- Bobeira de adolescente.
- Já disse que sei o quanto algo pode crescer para um jovem e que nenhum sentimento deve ser desmerecido.
- Ontem o Daniel foi pro meu apartamento. – ela revelou.
Luis levantou uma sobrancelha, um tanto irritado.
- E?
- Não fizemos nada. Ele esqueceu a camisinha e eu disse que de jeito nenhum faria sem.
- Está certo. Por que o choro?
- É que eu tinha finalmente aceitado que usar o Daniel pra te esquecer era uma grande besteira.
- Não entendo.
- Eu tinha camisinhas guardadas. Só não queria dormir com o Daniel. Por algum motivo sentia culpa de dormir com alguém que não fosse você. Fiquei aqui pensando se seria capaz de me entregar pra outra pessoa. Não sei quanto tempo levará até que eu tire da cabeça que seria traição amar outro. E eu sei que não é. Sei que não temos absolutamente nada. – ela olhou mais fundo nos olhos dele, e os dela se marejaram novamente – Por favor, não pense que estou tentando te conquistar, não pense que estou dizendo isso esperando ouvir o mesmo em troca. Eu sei que não é recíproco, só estou dizendo porque perguntou.
- Não estou pensando isso, não se preocupe.
- No que está pensando?
- Estou pensando… que realmente não consigo me manter afastado de você o suficiente.
- Como assim?
- Essa história toda não vai me sair da cabeça. Enquanto estiver dando aula pra sua classe, enquanto ler seu nome na chamada, enquanto passar em frente àquele apartamento, enquanto sentar-me no sofá da sala, enquanto abrir a geladeira e vir uma garrafa de vinho… vou me lembrar. Te ver é apenas uma das formas de lembrar.
- E a conclusão é…?
- Cedo ou tarde vai acontecer de novo.
- Acontecer de novo?
- Cedo ou tarde vou cair novamente em tentação. Não adianta mais ser otimista, é preciso ser realista. Desde que aconteceu seu cheiro fica em mim. Tentei me afastar, mas não foi possível. Tentei dizer a mim mesmo que era só curiosidade querer saber por que não falava mais comigo. Mas eu mentia pra mim mesmo. Então cabe a você me dizer não.
- Cabe a mim? Mas que responsabilidade enorme é essa sobre meus ombros? Luís, eu jamais seria capaz de te dizer não.
- Ficaria comigo sabendo que não sinto o mesmo? Que é apenas desejo latente de um homem sem ver a esposa muito tempo? Ficaria comigo mesmo sabendo que é mero egoísmo seu, que eu estaria te usando pra amenizar a saudade de minha mulher?
- Experimenta.

5 comentários:

Anônimo disse...

Aii q lindo gente...amei...

Anônimo disse...

Gente simplismente perfeito...
Ah! Gostaria de saber o pq do nome ser vermelho e branco e sobre os nomes dos capítulos!!

Anônimo disse...

perfaaaa! amei mesmo

Jaqueline Rosa disse...

LevantaamãoquemachaoDanielumidiota \o/ hahahaha muito bom meninas, amei! melhor a cada capítulo. Sem palavras. Beeijos, ;*

Anônimo disse...

Huum... obrigadoo por me responderem o pq do título... ah então a história eh baseada em fatos reais...rsrsrs por isso eh tão rica!
Espero q Sabrina e Luis fiquem juntos...mesmo com tantas diferenças...e q ele se apaixone por ela